quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Santo Erlisson: como imagino que meu irmão estaria hoje se fosse vivo


   
Se estivesse vivo, meu irmão Erlisson teria completado 32 anos ontem, no entanto hoje completa 16 anos de sua morte.
   Não tenho tantas memórias de meu amado irmão, porque qualquer fato anterior aos meus 7 anos de idade eu quase não lembro e quando ele faleceu eu tinha apenas 8 anos e iria faria 9 no mês seguinte.
    Juntando as memórias, idealizei como Erlisson seria atualmente. Em relação a profissão, é provável que seria médico, pois várias vezes me confidenciou que era essa a profissão de seus sonhos. Em relação ao porte físico, suponho que seria meio gordinho, mas daqueles estilo Fábio Porchat, que tem umas gordurinhas a mais, mas não aparecem tanto, acredito que ele faria exercícios físicos, pois gostava de tratar de sua aparência. Em relação a política, não tenho dúvidas que seguiria pelo mesmos ideais que eu, com certeza estaríamos juntos na posição centro-esquerda. No futebol, ele era flamenguista eu estaria agora zoando ele com esse negócio de cheirinho de título. 

Memória do dia 26 de setembro de 2002

   Quando ele foi para Pinheiro para ingressar no seminário, por mais católico que fosse a real intenção dele não era ser padre, isso ele me confidenciou certa vez,que iria ver se tinha a vocação para poder seguir em frente. O visitei antes do mês de julho, acredito que em abril ou maio de 2002, junto com a minha mãe, o padre Paulo de Bequimão e a mãe de outro seminarista. Aparentemente ele estava bem, o padre Luís Antônio era o responsável pelo local, nos mostrou as dependências do seminário, almoçamos e pela tarde retornamos para casa. Em julho ele entrou de férias e passou um tempo com a gente, e essa foi a última vez que eu o vi vivo e que pude desfrutar a doce e adorável companhia de meu irmãozinho. Naquele mês, Claudinho e Buchecha haviam lançado uma música que dizia assim:  


"Avião sem asa
Fogueira sem brasa
Sou eu assim, sem você

Futebol sem bola
Piu-piu sem Frajola
Sou eu assim, sem você."

   De repente ele cantou "Jara sem Dedeco" e eu não gostei, porque o Claudinho da dupla morreu naquele mês e na música falava "Buchecha sem Claudinho" como se fosse uma macabra premonição. Se obra do malvado destino ou coincidência, o fato é que dois meses depois aquela frase se consumou: eu havia ficado sem meu irmão. 

   Aquele ano de 2002 era de eleição, no dia 26 de setembro, minha mãe havia ido para Bequimão, chegou quase no fim da tarde. A noite, meu pai e meu irmão foram a um comício do candidato Zé Genésio no povoado Marinho, ficamos em em casa somente eu, mamãe e Lande. Lembro que estávamos de algazarra, com algumas brincadeiras e cedo fomos deitar. Como criança dorme logo, não tardei a pegar no sono, e acordei com choro de minha mãe de meu irmão e dentro de casa haviam algumas freiras que foram as portadora da má notícia. Fiquei atordoada sem saber o que estava acontecendo, não teria como perguntar a minha mãe que mal conseguia respirar em meio ao choro. Encontrei Lande que me falou que meu irmão tinha sido atropelado, inocente e sem ter noção da gravidade da situação, disse que ele ainda podia estar vivo, quando a espada do destino me acerta: "não tem mais jeito, ele tá morto". Os senhores que estão lendo tudo isso devem imaginar como estou escrevendo neste momento, ainda em meio a saudade e ao um choro inconsolável. 
    Um homem que fora criado por padre Paulo havia ido buscar meu pai e Edinho no comício. Foi ele quem contou que não havia sido acidente, mas sim suicídio (hipótese para mim duvidosa, explico em outra postagem).
      A dor de perder alguém que nem sequer está doente é duplamente maior, nosso psicológico não está remotamente preparado, a dor vem e abraça para não soltar nunca mais. 
     Durante 16 anos, sempre imagino como meu irmãozinho estaria, como seria se ele tivesse ficado aqui entre nós. 
  O Erlisson de hoje seria uma rapaz de 32 anos, bonito, formado, defensor das mais belas causas que existem em defesa dos seres humanos, dos animais e todo meio ambiente. O Erlisson de hoje seria um verdadeiro cidadão de bem, educado e honesto. O Erlisson de hoje seria  tudo que há de melhor e que possa existir e seria meu melhor amigo e confidente. Ele seria ainda parceirão de baladas e amante da Cultura Popular como eu sou. 
O Erlisson vive e mora dentro do meu coração, para todo o sempre. 

Restam dúvidas, restam saudades, sobram lágrimas. Passe o tempo que passar, não esquecerei e sempre terei Erlisson nos meus pensamentos, nos meus sonhos e na minha vida. A parte que ele ocupa no meu coração estará sempre preenchida por ele. 

Agora ele recebeu de mim o título de Santo e será pra mim Santo Erlisson















sexta-feira, 27 de julho de 2018

EXPEDIÇÃO MARANHÃO PROFUNDO: DA AMAZÔNIA À CAATINGA.

Por Rafael dos Santos Marques


Saindo de uma praia nordestina ensolarada pegamos o rumo às profundezas, mistérios, exuberância e biodiversidade da floresta amazônica dos Ka'apor, Awá-Guajá e Guajajara. Logo a seguir desviamos o caminho e nos deparamos com grandes paredões de arenito e chapadas cobertas de Cerrado sem fim salpicado de cachoeiras. Entre  grandes rios e extensas planícies desembarcamos em um verdadeiro pantanal com enormes espelhos d'água doce a perder de vista. Um pouco adiante entramos numa floresta de palmeiras de Cocais para chegarmos ao Semiárido e seus carnaubais e mandacarus. Percorrendo entre vales, planaltos e pequenas serras de altitudes modestas, voltamos ao segundo maior litoral da nação e desembarcamos em uma imensa reserva de manguezal - uma das maiores do mundo, onde a Amazônia encontra o Atlântico - e navegamos por muitas ilhas com pescadores e praias desertas até chegarmos ao "deserto branco" que chove e forma inúmeros oásis de águas pluviais, um pouco antes de um também famoso Delta das Américas. Já em alto mar ainda tem um grande banco de corais e naufrágios com abundante fauna marinha...e a viagem continua...
   Poderíamos estar resumindo um roteiro pelo Brasil inteiro..mas falamos apenas de um pedaço dele: o que reúne - sem alardear - os principais ecossistemas e biomas do país inteiro em um só território estadual.
   O Maranhão ostenta um dos piores IDH's da nação e sempre está nas piores colocações dos rankings sócio-econômicos. Ironicamente, mas não inexplicavelmente, é um dos Estados mais ricos do ponto de vista natural, cultural e humano, aqui onde MISCIGENAÇÃO se escreve com letras maiúsculas e onde o Brasil é ainda mais brasileiro com fortes heranças das três principais matrizes étnicas de formação de nosso povo.
   Desbravar essas riquezas não é tarefa fácil levando em conta as grandes distâncias, estradas ruins e acessos muitas vezes complicados. A beleza tropical profunda e tão brasileira deste torrão é pra aventureiros que abrem mão do conforto convencional e que tem sensibilidade e paciência suficientes para fazer descobertas que muitas vezes não se mostram facilmente, à beira da estrada. A recompensa a tanto esforço é encontrar lugares ainda "puros", quase intocados e desconhecidos da maioria dos maranhenses e brasileiros. O melhor de toda viagem é se surpreender com maravilhas onde menos se espera e se sentir um verdadeiro explorador pioneiro. Há também aqueles lugares mais acessíveis e mais próximos aos centros urbanos e por isso mais povoados e/ou frequentados, mas não deixam de ser surpreendentes através de um novo olhar, de novas paisagens e descobertas, especialmente quando se transformam ao longo do ano sob as leis da natureza.
   O Maranhão é cheio de lugares assim e convida - ainda timidamente - a ser descoberto.
  O fotógrafo Evandro Martin e o cineasta Edemar Miqueta  atenderam a esse convite em uma de suas visitas aqui aonde o Nordeste encontra o Norte e onde a Caatinga e o Cerrado vão dando espaço para a maior floresta tropical do planeta.
   A expedição "MARANHÃO PROFUNDO  DA AMAZÔNIA À CAATINGA" já está dando os seus primeiros passos e a MARAMAZON - que se orgulha muito de ser filha deste tesouro de torrão e sempre faz o seu papel na divulgação de nossos atributos naturais e culturais e na sensibilização e educação ambiental -  não poderia estar alheia a esse importante projeto, que tem como culminância a publicação de um livro de fotografias que vai revelar para para o Brasil e para o planeta o Maranhão muito além dos azulejos e das dunas. Mais importante ainda: vai ser capaz de provocar em cada maranhense a vontade de conhecer melhor sua terra, o sentimento de pertencimento, o orgulho, o amor e o desejo de preservação e de cuidado. Quem sabe assim começamos a vislumbrar um futuro melhor para as próximas gerações de maranhenses.
Revelar o Maranhão é revelar o Brasil profundo!
   Boa viagem Evandro e Edemar e - como manda a nossa tradicional hospitalidade: "Entrem, se abanquem e estejam à vontade".  

Equipe da TV Mirante entrevista Evandro na Pousada Maramazon                                      Poster da Expedição.
Rafael Marques, Evandro Martin e Edemar Miqueta



quinta-feira, 19 de julho de 2018

Feliz Aniversário, Papai!




19 de julho 1958: corre pra lá, corre pra cá, a mulher tá com dor de parir. Entra em trabalho de parto e eis que nasce, um menino, bem branquinho, de cabelos um pouco ruivos, e talvez por isso o nome escolhido tenha sido Rui... 
UM ADOLESCENTE NO PARÁ
O meu pai teve uma infância bem difícil, tendo que trabalhar desde muito cedo para ajudar no sustento da família, somente ele e os seus irmãos trabalhavam nas roças de outras pessoas por pouquíssimo dinheiro, pescavam etc. Alguns de seus irmãos tiveram o privilégio de poder estudar na cidade de Peri-Mirim, já ele e Jaime (irmão dele já falecido) não tiveram a mesma sorte.
Papai viajou ainda adolescente para o Pará, em busca de trabalho, como se dizia na época, foi para o “trecho”, sem saber ler e escrever e sem autorização para viajar sem responsável legal, teve de se esconder dos militares pois nesse período o Brasil estava sob o regime de repressão militar.

 
O vaqueiro saindo pra campear o gado, década de 80. 

No Pará, não era raro ter trabalhadores em regime de escravidão nas fazendas, uma realidade que infelizmente ainda não ficou apenas na história. Meu pai teve sorte de não ir para uma dessas fazendas, trabalhou em muitas coisas, como seringueiro, na derrubada de área para pasto e todos os serviço que apareciam. O dinheiro fruto de seu trabalho era usado controladamente pois ao chegar de volta no Maranhão tinha que prestar contas com o pai além e ter que lhe dar a maior parte do que ganhava. E essa rotina ele manteve até quando tinha mais ou menos 25 anos de idade.
Por sorte, foi parar na Fazenda Marupiara, em Tomé-Açu, comandada por Seu Jovino e Dona Arlene, de quem se tornou o homem de confiança. Trabalhando como vaqueiro, foi aprendendo também com o veterinário da fazenda a identificar as doenças dos animais e quais os tratamentos aplicar.


Papai dirigindo trator na fazenda no Pará, década de 80.

PAPAI PROFESSOR

 Foi meu pai quem me ensinou o nome científico da pulga: “Tunga penetrans”. Também foi meu pai quem me ensinou que “os índios Caetés comeram o Bispo Sardinha”.  Quando criança, não entendia, mas depois fui pesquisar a história e descobri que em 1556 o religioso Pero Fernandes Sardinha (primeiro Bispo do Brasil) havia sobrevivido a uma naufrágio na costa de Alagoas, quando foi capturado pelos índios Caetés e devorado em um ritual de antropofagia.
Agora os meus nobres leitores devem estar pensando: “como ele aprendeu tudo isso sem ir à escola?”.  Papai sempre presta atenção em tudo, e aprende com muita facilidade. As ocupações laboriosas do dia-a-dia o deixavam fatigado, ele até tentou estudar durante a noite, mas era tudo muito difícil. Nem por isso não deixa de dominar os mais variados assuntos, sabe de tudo um pouco, desde “amansar burro bravo” até fazer planta enxertada. Os horários da maré, sabe todos de acordo com a lua, conhecimento empírico tem de sobra, além de muita experiência.

CORAGEM PRA TUDO

Medo de visagem, nem pensar! Vai rasgando mata e levando tudo na frente. Anda só pelos matos a qualquer hora da noite ou da madrugada, não tem negócio de esperar galo cantar, se aparecer, ele enfrenta, oras!  Afinal que tipo de homem tem medo de visagem?
Papai tem uma conduta muito ‘paz e amor’, não se envolve em confusão, mas quando foi preciso meter porrada e quebrar a cara de um vagabundo, o fez sem pensar duas vezes, e claro, tem a nossa aprovação, afinal o cara queria “mexer no nosso pirão”, e ele estava defendendo a minha mãe e a nós seus filhos. É nosso herói, homem de luta, aí vem um zé ninguém querer perturbar a nossa família, leva na cara para largar de ser otário.

IDAS E VINDAS PARA A SALINA

Se tinha uma coisa que gostávamos era quando papai vinha da salina. É um local no litoral ocidental maranhense onde pescadores iam em busca de camarão e peixes. No entanto, os dias em que ele passava para lá eram de sofrimento pra nós. Com poucos recursos financeiros, era incerto ter o que comer. Minha mãe usava da fé para nos dar conforto, usando ditados populares como “dia de pouco é véspera de muito” e “o pouco com Deus é muito e o muito sem Deus é nada”, assim, aguardávamos ansiosos pela chegada de meu pai, que trazia fartura e a certeza de comida no prato por muitos dias. Sempre era uma semana que passava pra lá, pegando sol e chuva, com toneladas de muriçocas que chegavam a causar feridas na parte do pescoço. Tínhamos pena de ver nosso pai em uma situação tão degradante, ao mesmo tempo em que agradecíamos a Deus por ter nos dado como pai um homem tão trabalhador, que sempre se esforçou muito com a minha mãe para nos dar sempre o melhor, comiam pirão para dar arroz aos filhos, bebiam chá de capim-limão quando o café dava apenas paras as crianças. Desconheço pessoas mais valiosas que os meus pais.

OS APELIDINHOS DA CAÇULA

Na minha infância, papai me chamava de apelidinhos como fuminha (referente a perfume), Kolene (marca do creme de pentear que eu usava), Jaborandi (a essência do meu creme de pentear), Coquetel de frutas (também a essência do creme de pentear) e outro que já não me recordo, atualmente sou carinhosamente chamada de Kelina. A história que sempre me contava era ‘P Peru, G galo’, que eu insistia que ele me contasse antes de eu dormir. Sempre disposto a me agradar, trazia sempre que podia picolé, sorvete e outras guloseimas. Uma vez não tínhamos absolutamente nada para almoçar, o inverno rigoroso, ele saiu para caçar mas não trouxe nada, só um monte de ingás, que eu apesar de esperançosa por comida de verdade, comi meio contrariada. Até hoje quando vai comprar carne suína para mim, compra a minha parte preferida, que é a parte do pernil cujo osso tem uma estrutura arredondada, que eu chamo de “ossinho de bolota”.

FELIZ ANIVERSÁRIO, PAPAI

                Compartilho hoje um pouco da biografia de meu amado pai, de quem tenho orgulho e por quem tenho tanto amor e carinho. Esse guerreiro merece muito mais que parabéns, merece uma grande festa por essas décadas vividas, de muita luta. Feliz aniversário, papai! Parabéns!!! Desejo muita saúde, muitas felicidades, muitas bênçãos de Deus na sua vida. Que Jesus lhe abençoe sempre, e em agosto, se o Deus permitir, passarei o dia dos pais com o Rei Rui Castro.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

De quem é a culpa? Certamente não é da seleção brasileira de futebol.





O textão de hoje vai para você que pensa que os problemas da República Federativa do Brasil são culpa da seleção brasileira de futebol.

Sinto informar, mas, a culpa é tão sua quanto minha. Não adianta querer a qualquer custo culpar jogadores de futebol por queda do pib, taxa de juros altas, desmatamento, alta do desemprego, alta inflação, aumento da criminalidade, desvalorização da educação, desigualdade social etc. É inútil comparar indicadores sociais e taxas com países de primeiro mundo, incrivelmente não vejo ninguém falando dos indicadores sociais da Nigéria, do Marrocos, da Arábia Saudita, do Egito, do Peru, de Senegal...afinal, é uma copa de mundo de futebol ou de indicadores sociais e de taxas de desenvolvimento?? ps: os países citados estão sim na copa.

A culpa do país permanecer no caos é de todos os brasileiros que dia após dia dão a sua contribuição para que ele caminhe para o buraco sem fundo da discriminação e da desigualdade.

É dos maus gestores eleitos por compra de votos e daqueles que vendem o voto.

É da pessoa que não quer exercer o seu direito de votar.

É da pessoa que dirige bêbado e mata pessoas / não respeita as leis de trânsito e a caixa de correio acumula multas.
É do carinha da geração nem-nem (nem estuda e nem trabalha), que acha um absurdo o programa bolsa-família, mas ganha mesada da mamãe e do papai. 
É daquela pessoinha que finge dormir só para não oferecer o assento no transporte público coletivo para uma pessoa que necessita.
É do empresário que não quer respeitar os direitos trabalhistas dos seus funcionários.
É do funcionário que arruma atestado falso para não trabalhar.
É da pessoa que quando ver um acidente, em vez de socorrer a vítima, rouba os seus pertences, e quando é um caminhão de transporte, rouba a carga,nem porcos vivos escapam dos saqueadores no Brasil.
São tantos maus exemplos que não cabem em uma postagem só, falta espaço para tanta hipocrisia.
Mas, você está aí, julgando que todas as mazelas é culpa do Tite, do Alisson, do Marcelo, do Coutinho, do Firmino e demais membros da seleção. (a Marta escaparia?)

Já passou da hora de rever nossos atos e repensar as nossas atitudes. A gente começa a mudança é por nós mesmos. 

PS: Estudar um pouquinho de Geopolítica faz bem, não estamos em uma disputa de G7 x BRICS. 

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Os mistérios no dia de finados no cemitério de Ribamar.


Imagem ilustrativa
Em novembro de 2002 tive a terrível experiência (ninguém deseja fazer isso para alguém que ama tanto)  de acender velas no dia de finados para um ente querido que havia partido. É uma tradição antiga praticada em diversos países e cada um possui sua própria maneira de homenagear aqueles que já não estão mais nesta dimensão. O meu irmão havia falecido em setembro, e foi sepultado no cemitério do povoado Centrinho, distante da nossa casa uns 3 ou 4 quilômetros, mesmo próximo havendo o cemitério de Ribamar, este por sua vez é bem isolado, sem casas por perto ou iluminação alguma de luz elétrica.

Estávamos voltando para casa, eu, meu pai e minha mãe, a estrada estava muito escura por causa da vegetação de ambos os lados e raramente passava claridade do luar, assim contávamos com o auxílio de uma lanterna. Eu ia a uns 10 metros à frente, estava em uma bicicleta monark vermelha e como tinha medo, pedalava e esperava meus pais se aproximarem, então, pedalava e esperava e foi assim até chegar próximo ao cemitério de Ribamar.

O cemitério de Ribamar recebe esse nome por estar localizado nas terras pertencentes a um senhor chamado Ribamar, detentor de uma grande parte de terra naquela região. Sabe-se que seu pai veio para o Maranhão fugindo da seca no Piauí, e instalou-se naquela localidade. Seu Ribamar é conhecido por negar côco babaçu paras as pessoas que o tinham como única fonte de renda e consequentemente de alimentação. Quando mamãe estava grávida (esperando esta pessoa vos escreve) e meu pai estava para o Pará em busca de trabalho, ela o encontrou no caminho de um poço e pediu que ele permitisse que ela juntasse os cocos de um palmeira próximo de nossa casa. Ver a minha mãe grávida, com um balde d´água na cabeça, mais três filhos e tendo o marido viajando não foi o suficiente para que ele permitisse o pedido, ao que respondeu secamente em alto e bom som: “NÃO”.

Voltando a narrativa inicial, cheguei próximo ao cemitério (por ser perto de uma encruzilhada, não raro era possível encontrar despachos e obras de feitiçaria por lá, também ainda hoje é considerado um local onde visagens e aparições de outros mundos costumam aparecer, assombrando que ousa passar por lá antes do cantar do galo ) e esperei meus pais, estava tudo iluminado pelas velas e era a visão perfeita de um filme de terror. Os meus pais estavam se aproximando quando de repente uma batida forte na palmeira de babaçu bem próximo a mim nos fez tremer de susto e de medo. Parecia que alguém havia desferido um golpe contra a palmeira usando um pedaço de madeira. Em vão meu pai tentou localizar com a lanterna o causador de tamanho barulho, mas não havia ninguém, nem barulho de nada andando pelo mato, sequer ventava no momento e a possibilidade de ser a folha da própria palmeira caindo foi totalmente descartada.

Ainda atônitos com o que havia ocorrido, desci da bicicleta e passei a ir junto com meus pais. Ainda hoje não achamos um explicação óbvia para esse ocorrido: Afinal, quem bateu na palmeira? Teria sido o Saci-Pererê? O Currupira? Algum encantado do mato? Ou teria sido alguma alma inconformada? Sinceramente, só Deus sabe!

No ano seguinte, refizemos o mesmo trajeto, desta vez, todos caminhando. Por causa do ocorrido no ano anterior, eu e minha mãe decidimos passar pelo lado da estrada mais afastado, papai como sempre foi destemido, passou mais perto do cemitério. Ao passarmos em frente, ouvi dentro do mato bem pertinho da estrada algo como o choro de um bebe, ou o miado de um gato daqueles que causam medo. Fiquei arrepiada mais não comentei nada, dizem os mais velhos que quando se ouve alguma coisa não faz bem comentar logo, continuamos nosso trajeto e eu não tirava aquele som estranho da cabeça. Já chegando perto de casa, tomei coragem e falei:

- Vocês não vão acreditar em mim, mas escutei uma coisa igual choro de criancinha perto do cemitério.
Para a minha surpresa, a resposta de mamãe confirmou que aquilo não fora algo de minha imaginação:
- Pois eu acredito que minha filha, porque eu também ouvi e foi por isso que peguei na tua mão.

No outro ano, eu já estava aguardando para ver o que seria dessa vez, mas, para nossa surpresa, não aconteceu nada. Tudo transcorreu sem nem acontecimento que nos deixasse assombrados. Sou corajosa? Nem tanto!




terça-feira, 5 de junho de 2018

A Escrava Decapitada


Na região de Pontal e Carnaubal (povoados do município de Bequimão - MA) haviam engenhos de produção de açúcar, no século XIX. Embora de pequeno porte, a mão de obra escrava não era dispensada. Não raro, escravos fugitivos de outros engenhos acabavam sendo capturados nessas áreas, como foi o caso de Costa D'Aço,  já relatado neste blog anteriormente.
O caso de hoje é muito contado ainda pelos moradores mais antigos de Pontal, a tradição de contar histórias é importante para manter viva partes de nossos antepassados.
Existia um senhor de engenho muito  branco,  pelo que contam parecia ter nascido albino, que residia nas áreas de Carnaubal - Ponta D'Areia. Por ser tão branco,   o sol lhe deixava sempre com a pele avermelhada, e sempre ficava nesse tom pois ele precisava sair ao sol, e naquele tempo ainda não existiam os protetores solares que conhecemos hoje.
Em São Bento, município geograficamente próximo a Pontal (dar para ir até a pé) existia uma jovem negra  que morava em uma fazenda, na casa grande, sendo muito querida por seus senhores,  pois a haviam criado desde pequena e residia com eles na casa grande. De beleza estonteante,  a jovem arrancava suspiros de diversos homens que se encantavam por ela.
Ocorre que, sempre que ia a São Bento e passava pela fazenda onde residia a jovem, o homem de pele avermelhada era apelidado por ela de camarão. Ele ria por fora mais por dentro um desejo de vingança tomou posse de seu coração. Certa vez, passando por lá,  ela o chamou de camarão com maior gozação e ele fez seu cavalo virar e retornou. Foi falar com o dono da  fazenda, dizendo estar interessado em comprar aquela linda jovem para fazer de esposa, pois estava muito apaixonado por ela. O dono da fazenda recusou a oferta, dizendo ter muito apreço e que sua esposa não concordaria com a venda. Os meses se passaram e a história se repetia: sempre que passava por lá, o homem se enfurecia ainda mais. Ele continuou sempre demonstrando interesse em comprá-lá,  até que um dia, pegou o dono da fazenda em péssima situação financeira e desta vez ele não recusou.
O homem sorriu diabolicamente. Colocou a jovem na garupa de seu cavalo, esta por sua vez chorava muito já temendo o seu futuro ao lado daquele homem cheio más intenções ocultas. Saíram da fazenda ele fazendo mil e umas declarações, fazendo com que todos ali pensassem que de fato havia amor e paixão por parte dele.
Longe da vista de todos,  no campo seco,  ele tirou ela da garupa do cavalo, prendeu-lhe as maos, amarrou-lhe uma corda no pescoço e disse que que assim chegariam  mais rápido em casa. O cavalo começou a andar mais rápido, e ela já morta de sede e cansaço, corria com os pés descalços nos torrões do campo, que já lhe causavam ferimentos. Após essa seção de tortura, o homem colocou o cavalo para galopar, a jovem desesperada não conseguiu mais  acompanhar o animal: a cabeça desprendeu-se do corpo, decapitando a jovem em meio ao campo. Satisfeito com a sua vingança arquitetada com detalhes, o homem de pela avermelhada largou lá mesmo o corpo, "para urubu comer".
Assim,  se encerra esta narrativa trágica, no tempo que os  senhores de escravos eram também senhores da vida e da morte.


Contribuição: meu pai Rui Castro

domingo, 6 de maio de 2018

É campeãoooo: Barcelona conquista o título em disputa de pênaltis contra o PSV em Pontal


O time do Barcelona venceu o campeonato ontem  (05/05) em Pontal após disputa nos pênaltis contra o time PSV, na grande final. Após  o empate em zero a zero no tempo normal, a definição do campeão veio através das cobranças de pênaltis deixando jogadores e torcedores ainda mais tensos.
O Barcelona é um time relativamente novo, mas reúne em seu elenco vários jogadores experientes  que foram fundamentais para avançar em cada etapa do campeonato.

Barcelona, o grande campeão 

Para Erlande Pereira, um dos dirigentes do time, o Barcelona teve uma brilhante atuação ao longo do campeonato, tanto que foi campeão invicto, ou seja, nao perdeu nenhuma partida até chegar a final e o engajamento de todos foi fundamental para alcançar o objetivo principal. "Só tenho a agradecer a Deus e parabenizar a todos os jogadores,  comissão  técnica e agradecer também  o apoio dos nossos patrocinadores além de agradecer todos aqueles que torceram por nós" disse Erlande Pereira em entrevista ao blog. 

Erlande comemora com jogadores

O prefeito de Bequimão, Zé Martins  (MDB), também estava prestigiando a final do campeonato. Vale ressaltar que em sua gestão é realizada a  Copa Quilombola,  realizada com times oriundos de comunidades quilombolas de Bequimão,  uma importante ação de apoio e incentivo ao esporte.

Erlande Pereira e o prefeito Zé Martins.  

Agora, o Barcelona deverá retomar em breve sua agenda de treinos para disputar os campeonatos sempre com a mesma garra e disposição. A titular deste blog parabeniza a todos pela vitória. #SomosTodosCampeões. 


Santo Erlisson: como imagino que meu irmão estaria hoje se fosse vivo

    Se estivesse vivo, meu irmão Erlisson teria completado 32 anos ontem, no entanto hoje completa 16 anos de sua morte.    Não tenho ...